| Observações aos interessados: |
A escrita acerca dos objetos artísticos (ainda que em sua mais ampla definição), com frequência, fundamentou-se na existência concreta das obras de arte. Enquanto outras áreas das humanidades enfrentavam fenômenos que se diluíram no passado, não raro a história da arte pôde contar com o fato de que, mesmo muito tempo depois ¿ quando os contextos que gestaram um acontecimento artístico já tinham se extinguido por completo ¿ a materialidade dos objetos, com sua insistência em permanecer, constrangia o próprio tempo. Para os pesquisadores no campo da história da arte, parece trivial lidar com problemas da concretude das obras: sua materialidade, seu peso, suas dimensões e volumes, sua localização do espaço, as matérias-primas e as técnicas de seu feitio, a descrição de sua forma. Comprometidos que estamos com nossas tarefas de visitar os objetos in situ, observá-los cuidadosamente, fotografá-los; mas também cuidar para que não sejam danificados, desumidificar o ambiente em que se encontram, higienizá-los e restaurá-los; e ainda buscar identificá-los, datá-los, tomar suas medidas ou embalar para transportar e prepará-los, com curadoria, para que sejam expostos e admirados, comprados e colecionados ¿ tudo isso nos coloca num corpo a corpo constante entre o pesquisador e as manifestações artísticas. Entretanto, em tempos de hiperpresença, convidamos os pesquisadores a refletir e apresentar trabalhos que permitam discutir uma história da arte a partir das ausências, sob o tema ¿o vazio na história da arte: objetos inexistentes, invisíveis ou inacabados¿. Serão bem-vindas propostas que revisem teórica e criticamente a questão, a partir dos seguintes eixos temáticos: 1. Horror vacui x Amor vacui. Este eixo acomoda, de um lado, estudos sobre os fazeres artísticos que se dedicaram a preencher os espaços vazios, como proteção contra o vácuo, entendido como caos (horror vacui). De outro lado, dedica-se a pensar sobre o desejo pelo Vazio, a partir da negação dos ornamentos, celebrado como (amor vacui). 2. Objetos imateriais. Este eixo pensará sobre artistas que criaram a partir do esvaziamento da matéria, desde a exposição ¿O Vazio¿ de 1958, da ¿Estética do Vazio¿ ou das ¿lacunas de representação¿. Interessam aqui obras intencionalmente translúcidas, transparentes, invisíveis ou em desaparição premeditada. 3. Objetos inexistentes. Este tópico se dedica à subtração, à desapropriação, às obras de arte roubadas, perdidas, deterioradas ou em ruínas, destruídas por guerras e iconoclastias. Cabe a noção de cripto história da arte. 4. Objetos inacabados e o Non finito. O problema do inacabado perturba o discurso histórico-artístico, como tensão entre matéria e espírito ou como forma de ativação do observador. A partir de esboços, rascunhos e estudos preparatórios, este eixo inclui a análise de obras que não foram concluídas, intencionalmente ou por interrupção imprevista do fluxo de sua concretização. 5. Angue, Musoni, Ma, Fana. Refletir sobre o espaço vazio em culturas não hegemônicas ou ¿não ocidentais¿. Aqui cabem discussões sobre o intervalo estruturante entre duas coisas ou sobre o esvaziamento do eu para que o Todo se manifeste. Vazio como plenitude ou as formas de entender o vazio não como ausência, mas como energia vital pulsante e espaço de criação repleto de possibilidades. Vazio como elemento de unificação e de presença divina. Vazio como experiência coletiva: desamparo ou ponto de origem. 6. Vazios historiográficos. Neste eixo serão discutidas as histórias da arte silenciadas e os apagamentos no discurso histórico-artístico. Quais histórias da arte não foram contadas? Quais sujeitos e experiências não puderam ser incluídas nos sistemas artísticos ou nas narrativas da história da arte? Obras de arte censuradas e artistas e historiadores da arte calados por sistemas de repressão.
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