27038 - O tabu da morte no Ocidente e a filosofia diante da morte: de Platão e do estoicismo antigo ao século XX.
Ano Base: 2025Tipo de ação: CURSO DE EXTENSÃO
Plano de ensino
Plano de ensino: Plano de ensino: 1ª Aula - 15/05/2025 Quadro Histórico ¿ Parte I - A proximidade com a morte na sociedade medieval: as guerras, a fome e os surtos de peste. - Contrição e busca da salvação divina: imagens do Juízo final; as Ars moriendi entre os séculos XIII e XV e o despertar da consciência individual. ARIÈS, Phillipe. História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 2017. DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente. São Paulo, Companhia das Letras, 2009. MORIN, Edgar. O Homem e a Morte. Rio de Janeiro, Imago editora, 1997. 2ª Aula ¿ 22/05/2025 Quadro Histórico ¿ Parte II - A morte romântica do século XIX e o culto aos túmulos individualizados. - Medicalização da vida e da morte nas sociedades industriais dos inícios do século XX e o tabu da morte no mundo contemporâneo. ARIÈS, Phillipe. História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 2017. MORIN, Edgar. O Homem e a Morte. Rio de Janeiro, Imago editora, 1997. 3ª Aula ¿ 29/05/2025 ¿Filosofar é aprender a morrer¿: a morte nos diálogos platônicos. - A morte como libertação da alma das cadeias do corpo e condição para a apreensão da verdade do ser. - O modelo de Sócrates: a morte exemplar do sábio. PLATÃO. Fédon. Belém, Ed. Ufpa, 2011. ________. Apologia de Sócrates. Belém, Ed. Ufpa, 2011. 4ª Aula - 05/06/2025 ¿Nada nos pertence Lucílio, só o tempo é mesmo nosso¿: a morte no estoicismo. - As Cartas a Lucílio de Sêneca: o pensamento da morte incita a consciência a se apropriar do presente e a progredir no caminho da sabedoria. - O exercício espiritual da premeditação da morte ¿ praemediatio mortis - como modo de fortalecer a virtude do sábio. SÊNECA. Cartas a Lucílio. Lisboa, Calouste Gulbekian, 1991. ________. Sobre a Tranquilidade da Alma. São Paulo, Ed. Nova Alexandria, 1994. 5ª Aula ¿ 12/06/2025 A morte cristã: castigo divino imposto ao homem decaído pelo pecado de Adão. - A influência decisiva de Santo Agostinho na cultura da Idade Média e do Renascimento: culpa cristã e esperança da intervenção da Graça. DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente. São Paulo, Companhia das Letras, 2009. SANTO AGOSTINHO. Confissões. São Paulo, Paulus, 1997. 6ª Aula ¿ 19/06/2025 A morte nos Ensaios de Michel de Montaigne ¿ Parte I - As mortes exemplares da Antiguidade: o suicídio heroico de Catão e a morte tranquila de Sócrates. ¿Da Crueldade¿ (II.11) In: MONTAIGNE, M. Os Ensaios. 3 vols. Trad. Rosemary Costhek Abílio. São Paulo, Martins Fontes, 2002. 7ª Aula - 26/06/2025 A morte nos Ensaios de Michel de Montaigne ¿ Parte II - Os conselhos de Montaigne contra o medo da morte, da firmeza estoica à estratégia da ¿diversão¿: o reconhecimento da própria fraqueza como caminho da sabedoria. - Da ¿diversão¿ de Montaigne ao ¿divertimento¿ de Blaise Pascal. ¿Que filosofar é aprender a morrer¿ (I. 20); ¿Da Diversão¿ (III.4); In: MONTAIGNE, M. Os Ensaios. 3 vols. Trad. Rosemary Costhek Abílio. São Paulo, Martins Fontes, 2002. PASCAL, B. Pensamentos. São Paulo, Martins Fontes, 2005. 8ª Aula ¿ 03/07/2025 A morte e o niilismo existencialista de Heidegger e Sartre. BEAUVOIR, S. A Cerimônia do Adeus. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 2015. HEIDEGGER, M. Carta sobre o Humanismo. São Paulo, Ed. Centauro, 2015.
Objetivos e Resultados Esperados: Objetivos Gerais: - Identificar na morte o principal tabu de nosso tempo e submetê-lo à crítica, como motivo de imensa angústia e tensão emocional. A expulsão da morte da vida cotidiana e o interdito que paira sobre ela é elemento estrutural da civilização contemporânea, vinculado ao progresso da técnica, notadamente no campo da medicina e ao imperativo de uma noção hedonista de felicidade. Suas origens remontam às sociedades industriais urbanizadas da Europa e dos Estados Unidos da América de inícios do século XX, marco de uma mudança profunda dos costumes no ocidente, nos quais até então, pode-se reconhecer um sentimento antigo e duradouro de familiaridade com a morte. - O diálogo com as reflexões dos filósofos sobre a morte ao longo da História, passando por textos de Platão, Sêneca, Santo Agostinho, Michel de Montaigne, Blaise Pascal, bem como da corrente existencialista de Heidegger e J. Paul Sartre, visa restaurar o nosso direito de considerar a naturalidade de nossa finitude, atenuando quem sabe o pânico atrelado em geral à mera enunciação da palavra `morte¿. Específicos: - Caracterizar a noção de felicidade própria à civilização contemporânea pós-industrial, ligada à busca desenfreada do lucro e do prazer e recuperar seu contraponto no ideal antigo do ¿bem viver¿, desenvolvido pelas escolas filosóficas da Antiguidade - sobretudo pelo estoicismo -, que incluía exercícios de familiarização com a idéia da morte como evento natural, e de tomada de consciência da própria finitude enquanto fundamento de uma vida mais plena.
Justificativas: Justificativa: - Pode-se dizer que a obra de Edgar Morin, O homem e a morte, publicada em 1951, rompe um longo silêncio das ciências humanas sobre o tema, dando origem ao surgimento de uma história e de uma sociologia especializadas no problema da morte, graças às quais podemos vislumbrar as atitudes das pessoas comuns diante da morte nas sociedades pré-industriais da alta Idade Média aos inícios do século XIX. O historiador Phillippe Ariès em sua História da morte no Ocidente, reconhece neste largo arco temporal um período de bastante longa duração, em que perdura uma atitude de proximidade com a morte, subjacente às várias mudanças nos rituais da morte e nas maneiras de morrer. A difusão das imagens do Juízo final e das ¿Artes de morrer¿ - Ars moriendi - que ensinavam a morte piedosa, entre os séculos XIII e XV, são testemunhos do triunfo da morte sobre as consciências e ao mesmo tempo do triunfo da individualidade, doravante valor central da cultura moderna, desprendida das representações coletivas, julgando a própria vida face à iminência de seu fim. De todo modo, remonta à Antiguidade, a idéia de que o momento derradeiro do sábio ou do herói deve ser valorizado como cristalização suprema do valor demonstrado ao longo da vida, corolário fundamental de sua virtude exemplar. Como observa Edgar Morin, por outro lado, o ¿confronto pânico em um clima de angústia, de neurose e niilismo¿ diante da morte, característico do mundo contemporâneo em que se vive como se não se fosse mortal, corresponde a uma crise da individualidade ou da própria contemporaneidade. É importante assim desmistificar o principal tabu contemporâneo, avançando num campo de estudos ainda não suficientemente explorado, bem como examinar os diferentes modos com que a tradição filosófica tratou do tema, pois neste campo o problema da inquietude humana face à sua finitude jamais foi negligenciado.
Metodologias: Metodologia Aulas expositivas a partir dos textos e referências próprios a cada aula; apresentação de iconografias de época e debates sobre os temas propostos.
Conteúdo programático com responsáveis pedagógicos por tema/assunto - aula ou grupo de aulas: Conteúdo Programático I ¿ Quadro Histórico: as atitudes diante da morte nas sociedades pré ¿ industriais e as iconografias da morte na Idade Média. I.2 ¿ O culto romântico da morte no século XIX. I.3 ¿ O tabu da morte nas sociedades industriais e pós industriais contemporâneas. II ¿ Os discursos filosóficos sobre a morte. II.1 ¿ Os diálogos de Platão. II.2 ¿ A visão estóica de Sêneca. II.3 ¿ A tradição cristã agostiniana. II.4 ¿ Os Ensaios de Michel de Montaigne. II.5 ¿ De Montaigne a Pascal. II.6 - A corrente existencialista de Heidegger e Sartre.
Referências (bibliográficas e outras): Referências Bibliográficas Fontes primárias: BEAUVOIR, S. A Cerimônia do Adeus. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 2015. HEIDEGGER, M. Carta sobre o Humanismo. São Paulo, Ed. Centauro, 2015. MONTAIGNE, M. Os Ensaios. 3 vols. Trad. Rosemary Costhek Abílio. São Paulo, Martins Fontes, 2002. PASCAL, B. Pensamentos. São Paulo, Martins Fontes, 2005. PLATÃO. Fédon. Belém, Ed. Ufpa, 2011. ________. Apologia de Sócrates. Belém, Ed. Ufpa, 2011. SARTRE, J. P. O Ser e o Nada. São Paulo, Ed. Vozes, 2015. SÊNECA. Cartas a Lucílio. Lisboa, Calouste Gulbekian, 1991. ________. Sobre a Tranquilidade da Alma. São Paulo, Ed. Nova Alexandria, 1994. SANTO AGOSTINHO. Confissões. São Paulo, Paulus, 1997. Fontes secundárias: ANNAS, Julia. The morality of Happiness. Oxford: Oxford University Press, 1993. ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Rio de Janeiro, Ed. Forense Universitária, 2002. ARIÈS, Phillippe. História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 2017. DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente. São Paulo, Companhia das Letras, 2009. ________________. Nascimento e Afirmação da Reforma. São Paulo. Pioneira, 1989. GILSON, Etienne. Introdução ao estudo de Santo Agostinho. São Paulo, Discurso editorial, 2007. HADOT, Pierre. O que é a Filosofia Antiga? São Paulo, Ed. Loyola, 1999. MORIN, Edgar. O Homem e a Morte. Rio de Janeiro, Imago editora, 1997.
Modo e critérios da avaliação de aproveitamento: Critérios de Avaliação do Aproveitamento: Presença e participação nos debates durante as aulas
Estratégias de Divulgação: Estratégias de Divulgação: Divulgação por e-mail institucional e pelo site do siex via cartaz informativo
Recursos didáticos: Recursos didáticos: - Leituras dirigidas dos textos propostos e abertura de debates a partir do conteúdo dos textos e da apresentação de imagens: iconografias, pinturas e imagens de época.
Ementa: O curso se divide em duas sessões propondo um estudo sobre o imaginário ocidental em torno do problema da morte ao longo da História, bem como a reflexão e o livre debate sobre o tema a partir da leitura de trechos de várias obras filosóficas que se debruçaram sobre o problema da finitude humana da Antiguidade aos tempos modernos. Na primeira sessão do curso, pretende-se apresentar um quadro histórico a partir das obras de Edgar Morin, Phillippe Ariès e Jean Delumeau que dê conta das atitudes e costumes das pessoas comuns diante da morte desde as sociedades pré industriais da Idade Média e do Renascimento aos inícios do século XX. A segunda sessão do curso, por sua vez, será ocupada pela abordagem do pensamento dos filósofos sobre a morte, de Platão e Sêneca ao existencialismo de meados do século XX de Heidegger e Sartre.