29305 - Sociedades saarianas - entre história e arte
Ano Base: 2026Tipo de ação: CURSO DE EXTENSÃO
Plano de ensino
Plano de ensino: O minicurso Sociedades saarianas - entre história e arte em movimento, com carga horária de 8 horas, propõe uma análise crítica das narrativas dominantes sobre o Saara no campo da História da Arte, problematizando perspectivas eurocêntricas que historicamente o associaram a vazio geográfico, histórico e cultural, ou o definiram como barreira natural e obstáculo civilizacional. Em contraposição a essa leitura, o curso compreende o Saara como espaço dinâmico de circulação, intercâmbio e produção estética, cujas redes foram tecidas ao longo do tempo por meio de lógicas locais, mobilidades próprias e processos históricos atravessados por distintas geopolíticas. O curso tem como objetivo geral compreender o Saara como território histórico de produção artística e construção de territorialidades translocais, enfatizando a agência das populações locais na constituição de uma contemporaneidade plural. Especificamente, busca-se analisar as territorialidades indígenas amazigh como formações transnacionais que desafiam fronteiras coloniais; investigar suportes expressivos tradicionais, como a arquitetura de terra e os grafismos ancestrais (a exemplo do Tifinagh), e suas ressignificações nas artes contemporâneas e nas mídias digitais; bem como examinar o papel dos festivais culturais como novos eixos de circulação simbólica, política e econômica. Organizado em quatro eixos ¿ crítica historiográfica, mobilidade e arquitetura, grafismos e suportes expressivos, e contemporaneidade e festivais ¿ o minicurso articula exposições dialogadas, análise de imagens e materiais audiovisuais, leitura orientada de textos e debates coletivos. Ao final, espera-se que os participantes sejam capazes de reconhecer o Saara como espaço histórico de produção estética e intercâmbio cultural, superando concepções reducionistas e incorporando a noção de Saarianidade como categoria crítica para a História da Arte.
Objetivos e Resultados Esperados: Geral: Compreender o Saara como espaço histórico de produção estética, circulação cultural e construção de territorialidades translocais. Específicos: Problematizar as narrativas eurocêntricas que definem o Saara como vazio ou barreira. Analisar a noção de Saarianidade como categoria histórica e estética. Investigar suportes expressivos tradicionais e contemporâneos. Examinar os festivais culturais como novos eixos de circulação simbólica e econômica.
Justificativas: O minicurso justifica-se pela necessidade de situar historicamente as narrativas dominantes sobre o Saara no campo da História da Arte, problematizando seus limites e perspectivas fundadas em noções e interesses eurocêntricos. Tais abordagens frequentemente associam o Saara a um vazio geográfico, histórico e cultural, reduzindo-o a espaço de tráfico, barreira natural ou obstáculo civilizacional. Contudo, o Saara precisa ser repensado historicamente como um espaço de trânsito, intercâmbio e produção estética, cujas redes foram tecidas ao longo do tempo segundo lógicas locais, dinâmicas próprias, contradições internas e realizações atravessadas pelas geopolíticas de cada época. Longe de ser um vazio, o Saara constitui-se como território de circulação de saberes, técnicas, símbolos e formas artísticas. A abordagem proposta é fundamental para compreender a Saarianidade como fenômeno histórico de resistência, criação e construção identitária. Ao investigar desde a arquitetura de terra e a cultura material das caravanas até a atualidade dos festivais culturais e das artes digitais, o curso oferece ferramentas críticas para uma leitura ampliada da História da Arte, descentralizando seus marcos tradicionais.
Metodologias: Aulas expositivas dialogadas Análise de imagens e materiais audiovisuais Discussão de textos teóricos Debate coletivo Estudos de casos
Conteúdo programático com responsáveis pedagógicos por tema/assunto - aula ou grupo de aulas: 1. Sob uma perspectiva historiográfica e da História da Arte, como se define a 'espacialidade' do Saara? O debate contemporâneo sobre a definição do Saara busca superar a visão puramente bio-geográfica. 2. Como pensar as cidades históricas e marcos culturais saarianos e territorialidades amazigh? Tamanrasset e Janet (Tinariwen), Marraquexe e Taragalte (Khalid, Geração Taragalte, Aziz S), Timbuctu (Tartit) e Agadez (Mbandougou, Hawad, Chahamata) 3. Qual o papel das artes na ressignificação dessas rotas saarianas? As travessias do Saara, historicamente marcadas pelos '52 dias' das caravanas de camelos, sofreram transformações profundas. (Mauritânia-Marrocos-Mali-Senegal / caravane Ouadane/ Mbarek) 4. Como artistas e curadores dialogam com as formas expressivas locais? Ao analisar a trajetória dos suportes de expressão no Saara ¿ da arte rupestre, tatuagens corporais às telas digitais ¿ como se caracteriza a 'convivência' entre linguagens e suportes no cenário contemporâneo?
Referências (bibliográficas e outras): AG ADNANE, Mahfouz; NOGUEIRA, Flávio da Silva. Tessituras de resiliências em mundos-em-conflito: silenciamentos e metamorfoses em festivais e expografias visuais em contextos africanos. Revista Cadernos de Arte e Antropologia, dossiê temático, 2025. AG ADNANE, Mahfouz; BERTHET, Marina. Pan-Africano de Argel (1969): tensões e invisibilidades nas arenas políticas. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, n. 45, p. 29-46, 2025. AG ADNANE, Mahfouz. Movências tamacheque além-fronteiras: conexões, performances e narrativas insurgentes em festivais culturais saarianos (2001¿2017). 2019. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) ¿ Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2019. BARROS, Denise Dias; AG ADNANE, Mahfouz. Paisagens saarianas: palavra da estética Kel Tamasheque. Revista de Antropologia, São Paulo, v. 53, n. 1, p. 11-54, 2010. Disponível em: https://revistas.belasartes.br/arte21/article/view/41/39 . BARROS, Denise Dias. As artes nômades dos Kel Tamacheque: expressões que religam estética e ética nos tempos e nos espaços vastos do Saara e do Sael. In: SANTOS, Patrícia Teixeira; BARROS, Denise Dias (org.). Arte africana no contemporâneo. Curitiba: Positivo, 2014. BRAUDEL, Fernand. História e ciências sociais: a longa duração. Revista de História, São Paulo, v. 30, n. 62, p. 261-294, 1965. CAMPS, Gabriel. Les Berbères: mémoire et identité. Paris: Babel, 2008. CASAJUS, Dominique. Gens de parole: langage, poésie et politique en pays touareg. Paris: La Découverte, 2000. CHAKER, Salem. Libyque: écriture et langue. CLAUDOT-HAWAD, Hélène. Écriture tifinagh. Encyclopédie berbère, v. XVII, p. 2573-2580, 1996. COPANS, Jean. A longa marcha da modernidade africana: saberes, intelectuais, democracia. Luanda: Edições Mulemba; Mangualde: Edições Pedago, 2014. EL ANSARI, Integrist. La musique contemporaine touarègue. Africultures, 3 out. 2011. Disponível em: http://www.africultures.com/php/?nav=article&no=10424 . ES-SA¿DI, Abderrahmane. Tarikh el-Sudan. Tradução de Octave Houdas. Paris: Ernest Leroux, 1900. FARIAS, Paulo Fernando de Moraes. T¿dmakkat. In: BEARMAN, P.; BIANQUIS, Th.; BOSWORTH, C. E.; VAN DONZEL, E.; HEINRICHS, W. P. (org.). Encyclopaedia of Islam. 2. ed. 2012. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1163/1573-3912_islam_SIM_7283 . FERREIRA, Carolin Overhoff. História da arte descolonial: uma introdução metodológica. 2. ed. Lisboa: Edições 70, 2025. HAWAD, Mahmoudan. Touaregs, la marche en vrille. Le Monde Diplomatique, maio 2012, p. 11-12. Disponível em: http://www.monde-diplomatique.fr/2012/05/HAWAD/47655 . KANE, Ousmane. Timbuktu: an intellectual history of Muslim West Africa. Cambridge: Harvard University Press, 2016. KORMIKIARI, Maria Cristina N. Norte da África na antiguidade: os reis berberes númidas e suas iconografias monetárias. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, v. 17, p. 251-292, 2007. LHOTE, Henri. À la découverte des fresques du Tassili. Paris: Arthaud, 2006. MAZRUI, Ali. Sobre o conceito de ¿Somos todos africanos¿. American Political Science Review, v. 57, n. 1, p. 88-97, 1963. MUDIMBE, V. Y. A invenção da África: gnose, filosofia e a ordem do conhecimento. Petrópolis: Vozes, 2019. PLIEZ, Olivier. Nomades d¿hier, nomades d¿aujourd¿hui: les migrants africains réactivent-ils les territoires nomades au Sahara? Annales de Géographie, v. 652, n. 6, p. 688-707, 2006. RESTANY, Pierre. Hundertwasser: le peintre-roi-aux cinq peaux. Paris: Taschen, 2003. RHOSSEY, Rhissa. Jour et nuit, sable et sang: poèmes sahariens. Marseille: Éditions [s.n.]. TERRIER, Michel. Tiznit à l¿heure de la 8ème édition du Festival d¿argent ¿Timizart¿, 2017. Disponível em: https://agadirmichelterrier.wordpress.com/2017/07/25/tiznit-a-lheure-de-la-8eme-edition-du-festival-dargent-timizart/ . VANSINA, Jan. A tradição oral e sua metodologia. In: KI-ZERBO, Joseph (org.). História Geral da África. São Paulo: Ática, 1982. p. 139-166. Vídeos AG ADNANE, Mahfouz Ag. Techúmara: movimento musical Kel Tamacheq
Modo e critérios da avaliação de aproveitamento: Participação.
Estratégias de Divulgação: Instagram, Facebook, sites da Unifesp
Recursos didáticos: O minicurso utilizará recursos didáticos diversificados, articulando suportes visuais, textuais e audiovisuais para favorecer uma abordagem crítica e interdisciplinar. Serão empregados: projeção de imagens (fotografias, mapas históricos, registros de arquitetura de terra, grafismos Tifinagh e obras contemporâneas), trechos de documentários e registros de festivais culturais saarianos, além de vídeos e entrevistas com artistas e intelectuais amazigh e saarianos. Também serão feitas referências a textos acadêmicos previamente selecionados para leitura orientada, apresentação em slides para sistematização dos conteúdos, mapas geopolíticos e esquemas conceituais para compreensão das redes de circulação transaarianas. Quando possível, serão incorporados materiais sonoros (música tamacheque contemporânea) como forma de ampliar a experiência estética e analítica dos participantes. A metodologia privilegia a aula expositiva dialogada, análise coletiva de imagens e debate crítico, estimulando a participação ativa dos participantes na construção das reflexões sobre Saarianidade, territorialidade e produção estética.
Ementa: Módulo 1 (2h) ¿ O Saara na História da Arte: crítica às narrativas do vazio Módulo 2 (2h) ¿ Mobilidade, caravanas e arquitetura de terra Módulo 3 (2h) ¿ Grafismos, Tifinagh e reexistências estéticas Módulo 4 (2h) ¿ Festivais, arte contemporânea e redes digitais