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29668 - Falar a língua da noite: poéticas oníricas indígenas
Ano Base: 2026
Tipo de ação: CURSO DE EXTENSÃO
Plano de ensino

Plano de ensino: O curso Falar a língua da noite: poéticas oníricas indígenas será desenvolvido em dois encontros presenciais de 4 horas cada, articulando exposição teórica, leitura e análise de obras, debate coletivo e oficina de escrita criativa. A proposta parte da compreensão de que, em muitas cosmologias indígenas, o sonho não constitui mera experiência subjetiva ou residual, mas um campo de conhecimento, criação, memória, relação interespecífica e elaboração ética do mundo. Nesse sentido, o curso pretende aproximar os participantes de poéticas oníricas indígenas que deslocam concepções ocidentais hegemônicas de arte, linguagem e imaginação. No primeiro encontro, serão abordadas as poéticas oníricas e xamânicas yanomami, com destaque para a centralidade do sonho como modo de relação entre corpo, floresta, ancestralidade e futuro. No segundo, o foco recairá sobre experiências visuais e cosmopoéticas warlpiri, especialmente sobre formas pictóricas e narrativas ligadas ao sonho como força de criação, memória e inscrição do mundo. Em ambos os encontros, após a discussão teórica e estética, será realizada uma oficina de escrita criativa, na qual os participantes serão convidados a produzir textos a partir de imagens, memórias, sensações, sonhos, rastros noturnos e exercícios de escuta de si e do coletivo. Ao final, pretende-se que os participantes tenham ampliado seu repertório crítico e criativo acerca das poéticas oníricas indígenas, reconhecendo o sonho como linguagem, gesto estético e experiência ética.

Objetivos e Resultados Esperados: O curso tem como objetivo geral refletir sobre as poéticas oníricas indígenas, tomando o sonho como experiência estética, ética e política, e promover uma prática de escrita criativa inspirada por essas reflexões. Como objetivos específicos, busca-se: - apresentar perspectivas indígenas sobre o sonho, com ênfase em experiências yanomami e warlpiri; - discutir o sonho como campo de memória, criação, escuta e elaboração de futuros; - analisar obras e práticas artísticas que mobilizam linguagens que aproximam o sonho de perspectivas e corporalidades muitas vezes sublimadas pelas experiências estéticas e éticas hegemônicas ocidentais; - estimular a escrita criativa como exercício de escuta sensível, imaginação e elaboração subjetiva e coletiva; - favorecer a aproximação entre reflexão teórica e prática artística. Espera-se, como resultados, que os participantes sejam capazes de reconhecer a complexidade estética e conceitual das poéticas oníricas indígenas; compreender o sonho para além de uma concepção individualizante ou psicologizante; desenvolver repertório crítico para pensar arte, literatura e cosmologia em perspectiva ampliada; e produzir textos autorais mobilizados pelas discussões do curso. Espera-se ainda que a experiência contribua para a valorização de epistemologias indígenas e para a ampliação das possibilidades de criação literária a partir de outras formas de imaginar, lembrar e narrar.

Justificativas: Em um contexto histórico marcado pela aceleração da vida, pela exaustão subjetiva e pela redução utilitarista da experiência, refletir sobre o sonho torna-se um gesto crítico e necessário. Como sugere Ailton Krenak, recuperar o direito de sonhar e de dormir em paz não diz respeito apenas à interioridade, mas à possibilidade de reorganizar ética e sensivelmente nossa relação com o mundo. O curso se justifica, portanto, por propor uma reflexão que articula arte, literatura e criação a partir de perspectivas indígenas que desafiam modelos ocidentais de racionalidade, produtividade e linguagem. As poéticas oníricas indígenas oferecem importantes contribuições para pensar a memória, a imaginação e a experiência estética de forma não dissociada do corpo, da coletividade, da terra e do mundo mais-que-humano. Ao aproximar produções yanomami e warlpiri, o curso também busca ampliar o repertório dos participantes em torno de obras e saberes ainda pouco difundidos em circuitos formativos convencionais, contribuindo para o reconhecimento da pluralidade epistemológica e artística de povos originários. Além disso, a proposta inclui uma oficina de escrita criativa, entendendo que a experiência estética não se limita à recepção ou análise, mas pode desdobrar-se em gesto de criação. Dessa forma, o curso justifica-se também por criar um espaço de elaboração autoral, no qual os participantes possam experimentar a escrita como escuta, imaginação e abertura ao sensível. Trata-se, assim, de uma ação formativa que articula reflexão crítica, valorização de saberes indígenas e prática criativa.

Metodologias: A metodologia do curso combinará exposição dialogada, leitura compartilhada de trechos teóricos e literários, análise de obras visuais, escuta e debate coletivo, além de exercícios de escrita criativa. Cada encontro será organizado em momentos complementares: apresentação conceitual do tema, aproximação com obras e experiências artísticas específicas, discussão em grupo e oficina prática de escrita. No primeiro encontro, a reflexão será conduzida a partir das poéticas oníricas yanomami, com ênfase em textos, imagens e formulações que permitam pensar o sonho como espaço de relação cosmológica, memória e criação. No segundo, a discussão se voltará às manifestações warlpiri, com especial atenção às conexões entre sonho, visualidade, território e inscrição simbólica. A oficina de escrita criativa será desenvolvida a partir de disparadores ligados à memória, à interpretação, à escuta, ao corpo como laboratório e espaço onírico e à imaginação, de modo que os participantes possam experimentar processos de escrita não apenas argumentativos, mas também poéticos e inventivos. A prática buscará acolher diferentes repertórios e níveis de familiaridade com a escrita. A condução metodológica privilegiará a participação ativa dos inscritos, o diálogo horizontal e a construção coletiva do conhecimento, entendendo o curso como espaço de formação, troca e criação.

Conteúdo programático com responsáveis pedagógicos por tema/assunto - aula ou grupo de aulas: Encontro 1 ¿ Poéticas oníricas yanomami: sonho, xamanismo, memória e criação Apresentação do curso e de seus pressupostos. O sonho como experiência estética, ética e cosmológica. Reflexões a partir de Ailton Krenak sobre a recuperação dos sonhos e do descanso. Aproximação às poéticas oníricas yanomami: sonho, floresta, corpo, canto, imagem e relação com o invisível. Discussão de textos e experiências artísticas ligadas ao universo xamânico yanomami e ao trabalho de Davi Kopenawa. Debate sobre sonho, memória coletiva, ancestralidade e futuro. Oficina de escrita criativa: exercícios a partir de imagens poéticas, escuta do corpo e elaboração de uma escrita atravessada pelo sonho. Encontro 2 ¿ Poéticas visuais warlpiri: sonho, imagem, território e imaginação Introdução às manifestações pictóricas e cosmopoéticas warlpiri e ao conceito aborígene de Jukurrpa. O sonho como força de criação, inscrição do mundo e transmissão de memória. Relações entre visualidade, narrativa, corporalidade e território. Discussão de obras e formulações teóricas relativas ao universo onírico warlpiri. Comparações e aproximações entre experiências yanomami e warlpiri, ressaltando diferenças, singularidades e potências comuns. Oficina de escrita criativa: produção de textos a partir de imagens, grafismos, sensações e exercícios de imaginação poética. Socialização dos textos produzidos e encerramento com debate sobre criação, sonho e futuro.

Referências (bibliográficas e outras): GLOWCZEWSKI, Barbara. Devires totêmicos: cosmopolítica do sonho. São Paulo: n-1 edições, 2015. KNGWARREYE, Emily Kame. Ntange Dreaming, 1989. Disponível em: https://www.arthistoryproject.com/artists/emily-kame-kngwarreye/ntange-dreaming/ Acesso em 18/13/2026 KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. KOPENAWA, Davi. O sonho das origens. In: Catalogo da Conferência Brasil 500 anos, experiência e destino. A outra margem do Ocidente, 1998. São Paulo, FUNARTE ¿ Instituto Cultural Itaú. Disponível em: http://www.proyanomami.org.br/osonho.htm Acesso em 20/03/2026 LIMULJA, Hanna. O desejo dos outros: uma etnografia dos sonhos yanomami. São Paulo: Ubu, 2022. RIBEIRO, Sidarta. O oráculo da noite. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. ¿

Modo e critérios da avaliação de aproveitamento: A avaliação será processual e formativa, considerando a natureza teórico-prática do curso. Serão observados: a participação nas discussões e atividades propostas; o envolvimento com as leituras, obras e reflexões apresentadas; a presença nos encontros; e a realização dos exercícios de escrita criativa desenvolvidos ao longo da oficina. Não se trata de avaliar desempenho técnico-literário em sentido normativo, mas o envolvimento do participante com a proposta do curso, sua capacidade de escuta, reflexão, elaboração e experimentação. Serão valorizadas a disponibilidade para o diálogo, a contribuição nas trocas coletivas, a articulação entre os conteúdos discutidos e os exercícios propostos, bem como a produção de ao menos um texto autoral resultante da oficina. Caso necessário para certificação, o aproveitamento poderá ser aferido mediante frequência mínima e participação satisfatória nas atividades desenvolvidas durante os encontros.

Estratégias de Divulgação: Partindo inicialmente dos canais oficiais de divulgação do LAPES (Laboratório de Práticas de Escrita da UNIFESP), a divulgação do curso poderá ser realizada por meio do compartilhamento das informações sobre os encontros em redes sociais institucionais e pessoais, páginas e perfis de grupos de pesquisa, mailing lists acadêmicas e culturais, cartazes digitais, canais de extensão universitária e circulação em coletivos ligados à literatura, às artes, à educação e aos estudos indígenas. A comunicação buscará destacar o caráter formativo e criativo da proposta, evidenciando a articulação entre reflexão teórica, poéticas indígenas e oficina de escrita. Também poderá ser estimulada a divulgação em cursos de graduação e pós-graduação, espaços culturais, coletivos de escrita, centros acadêmicos e núcleos de pesquisa interessados em literatura, artes, cosmovisões indígenas e criação.

Recursos didáticos: Serão utilizados como recursos didáticos textos teóricos e literários em formato digital; projeção de imagens e obras visuais; computador e acesso à transmissão por videochamada; materiais audiovisuais complementares; roteiros de discussão; propostas de exercícios de escrita; e, quando necessário, materiais de apoio elaborados pela ministrante. Para a oficina de escrita criativa, serão mobilizados disparadores textuais e visuais, exercícios de sensibilização, leitura compartilhada e momentos de socialização dos textos produzidos. Os participantes deverão dispor de material para escrita, em suporte físico ou digital, conforme sua preferência.

Ementa: Mais do que uma proposta estética, como vislumbrou Ailton Krenak, recuperar os sonhos e o direito de dormir em paz é também um atravessamento ético. Nas poéticas oníricas indígenas, subjetividades e coletividades encenam a construção de novos futuros por meio dos sonhos. É esta a intenção destes encontros: vislumbrar a criação poética a partir de uma perspectiva onírica. A fim de caminharmos na recuperação de uma memória coletiva, serão apresentadas experiências de artistas que transitam na linguagem do corpo acordado, com suas vozes-mãos-olhos-ouvidos, com seus cantos de coragem e de medo, com suas vigílias necessárias e seus ensaios de descanso. No primeiro encontro, atravessaremos as poéticas oníricas e xamânicas yanomami, povo originário do norte brasileiro. No segundo, iremos ao encontro das manifestações pictóricas noturnas warlpiri, povo originário do norte da Austrália. Junto a essas vozes, vamos tentar recuperar uma proposta de sonhar que convoque a força premonitória-profética-possível de todo inconsciente. Se os sonhos podem ser vistos como pontos de encontro entre a vida que vivemos por dentro e aquela que somos capazes de materializar, a ideia é conduzir não apenas a uma perspectiva reflexiva, mas ao ato de sentir a memória tangente ao corpo, a ponto de querer falar, traçando rotas próprias diante do papel.